[Opinião Quântica] O Escultor

O que você faria se em um acordo com a morte ganhasse o dom de esculpir o que quiser com as mãos, mas em contrapartida, teria apenas mais 200 dias de vida? E se nos seus últimos dias você conhecesse o amor da sua vida? O Escultor, de Scott McCloud, autor conhecido principalmente por seus livros teóricos sobre quadrinhos, conta esta história, que fala a todo momento sobre a vida, a morte e de todas as nossas diversas escolhas entre uma e outra.

O protagonista David Smith é um cara que depois de diversas frustrações e oportunidades perdidas, está definitivamente no fundo do poço, sem reconhecimento e nenhum tostão no bolso, tudo isso em pleno aniversário. Mas ao trocar uma idéia com a morte, decide dar sua vida em troca do poder de conseguir moldar qualquer material que queira. Nisso, ele vê nesse acordo sua chance de enfim colocar a sua vida em ordem e ser o artista que sempre quis ser.

A história toca em assuntos delicados como fama, orgulho e depressão. Ainda nos lembra a cada quadro o quanto nosso tempo é limitado e como é desperdiçado, mesmo quando temos ciência do inevitável. Também nos mostra o quão egoístas somos em pensar apenas no “nosso” tempo ao esquecemos que tudo isso também se aplica aos outros.

A arte de McCloud permite um grande contraste com o peso das coisas que ele discute, algo semelhante ao que o quadrinho Maus já fez. Além disso, seu desenho é expressivo, e mesmo sem composições mirabolantes, conseguem transmitir diversas outras nuances da história, um exemplo é o momento em que David caminha na calçada atravessando os dias de um calendário, prestes a chegar num abismo.

David mesmo com o poder de moldar qualquer material com as próprias mãos, se percebe incapaz de moldar diversas outras coisas que estão fora do seu controle, como a opinião alheia sobre si mesmo e sua arte. Isso nos mostra uma das características do que realmente é a arte: algo que você não pode controlar, e que tem vida própria na mente de cada pessoa. E que o reconhecimento tem o seu próprio tempo para vir, que não necessariamente é o que você espera.

Provavelmente todo mundo já precisou lidar com o equilíbrio entre vida pessoal/acadêmica/social/profissional, então dificilmente alguém não verá a si mesmo nas muitas situações apresentadas na história. Na nossa sede em ter uma vida bem sucedida (seja lá o que isso signifique) e de deixar uma “marca” no mundo, estaremos fazendo aquilo da forma que gostaríamos que fôssemos lembrados? E os nossos amigos, como eles lembrarão de nós? E acima de tudo, como serão nossos seus últimos dias de vida? Você faria algo diferente se soubesse o dia da sua morte?

Provavelmente, você não terá estas repostas nesta publicação, mas se você começar a se fazer estas mesmas perguntas depois da leitura, definitivamente terá captado o objetivo do autor.

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