Glauco – Série Quadrinistas Brasileiros

Para completar a tríade o último componente que faltava, Glauco Villas Boas formava com Laerte e Angeli “Los Três Amigos” – uma amizade que virou cartoon. Trabalha – até sua morte – juntos por 25 anos na Folha de São Paulo e criaram uma sintonia de humor raramente vista no meio.

Bom!!! Começando pelo início, Glauco mudou-se para Ribeirão Preto em 1976, e após ser descoberto pelo jornalista José Hamilton Ribeiro, publicou seus primeiros trabalhos no jornal Diário da Manhã. Foi premiado no Salão Internacional de Humor de Piracicaba em 1977, por um júri formado por Jaguar, Millôr Fernandes, Henfil e Angeli, e mais tarde na 2ª Bienal de Humorismo y Gráfica de Cuba.  Em 1984, ao desenvolver sua “autobiografia com exageros”, começou a publicar no caderno Ilustrada do jornal Folha de São Paulo, convidado por Angeli, onde mostrou vários personagens, entre eles Geraldão, criado em 1981 após ler A Erva do Diabo, de Carlos Castaneda. Logo também vieram Casal Neuras, Doy Jorge, Dona Marta e Zé do Apocalipse. Fez parte do elenco de redatores da TV Pirata e de alguns quadros do programa infantil TV Colosso (assim como Larte), ambos da Rede Globo, para a qual também desenvolveu vinhetas.
Editou a revista Geraldão pela Circo Editorial entre 1987 e 1989 e, nesse período, foi colaborador das revistas Chiclete com Banana e Circo. Músico, também tocava em bandas de rock. Para o público infantil, leitor do suplemento semanal Folhinha criou o personagem Geraldinho, que é uma versão light (no traço e na temática) do seu personagem Geraldão.
Seu estilo era reconhecido por um humor ácido, piadas rápidas, traços limpos, “ultrassofisticado no pensamento” e com “um jeito particular, que unia inocência e malícia”, Glauco colaborou para a modernização do projeto gráfico e do estilo dos cartoons brasileiros em período coincidente com o do advento de uma geração pós-ditadura. Os trabalhos do cartunista expressavam “o singelo, uma expressão quase infantil”, em resultado que mostrava a valorização do sentido urgente do humor. A abordagem dos seus trabalhos era o cotidiano e a sua degradação. Problemas conjugais, neurose, solidão, drogas e violência urbana eram retratadas “sempre com graça e compaixão”.

Confira os personagens criados por Glauco e suas tirinhas.

Geraldão

Geraldão é o principal personagem criado por Glauco, solteiro, na faixa dos 30 anos, ele ainda é virgem e mora com a mãe, com quem tem uma relação neurótica. Geraldão bebe, fuma bastante, toma os remédios que encontra pela frente e adora atacar a geladeira.

O personagem foi criado para o livro “Minorias do Glauco”, lançado em 1981.

Geraldinho

Geraldinho é a versão criança do Geraldão. Ao invés de beber, fumar e tomar remédios, ele é viciado em refrigerantes, TV e sorvete. Seus amigos inseparáveis são o cachorro Cachorrão e do gato Tufinho. Geraldinho foi criado especialmente para a Folhinha.

Netão

Netão foi o primeiro quadrinho criado por Glauco para a internet. Ele surgiu em maio de 2000, feito especialmente para o UOL. O nome Netão é uma referência à palavra net. O personagem tem cerca de 30 anos e vive “internado” em um apartamento com a mulher. Netão tem compulsão por salas de bate-papo e, sem nunca tirar seu pijama, passa boa parte do seu tempo envolvido em traições virtuais.

Dona Marta

Dona Marta é uma daquelas moças educadas à moda antiga e, de tanto esperar pelo homem ideal, acabou ficando para titia. Quando se deu conta de que não arrumaria um namorado, ela passou a cantar todos os que encontra. A personagem foi criada 1981, também para o livro “Minorias do Glauco”.

Casal Neuras

Criado em 1984, o casal é formado por uma mulher não submissa e por um homem que faz pode de liberal mas, no fundo, morre de ciúmes dela. Os dois são chamados de Neurinha, ela e ele. Os personagens foram baseados no primeiro casamento de Glauco.

Zé do Apocalipse

Zé do Apocalipse é uma espécie de profeta brasileiro, que acredita que o país é a terra do novo milênio. O personagem acredita ser o porta-voz dessa nova era e prega suas ideias em todo o lugar. Zé foi inspirado em um amigo de Glauco que vivia em uma comunidade alternativa.

Edmar Bregmam

O personagem é uma homenagem ao cineasta Glauber Rocha e ao cinema novo. Edmar nunca terminou um filme e seu único contato com o cinema foi ter sido responsável pelos efeitos especiais de “Terra em Transe”.

Doy Jorge

Doy Jorge é um roqueiro que não se deu bem na carreira e se deixou levar pelas drogas pesadas. O personagem foi criado nos anos 80 para as revistas do “Geraldão” e também teve suas tiras publicadas na Folha.

Zé Malaria

Zé é um antropólogo que estudou a mata, mas nunca foi a campo e morre de medo de cobras, aranhas e bichos em geral. Seu instrumento de trabalho é um inseticida que devasta a floresta.

Ficadinha

Criada em 2000 para integrar um canal do UOL direcionada para a sexualidade de jovens, Ficadinha é uma adolescente contemporânea. Ela tem 17 anos, mora com os pais e tem vários “ficantes”.

Faquinha

Faquinha nunca conheceu os pais e foi criado por Facão, um perigoso traficante. Faquinha entrou para o mundo do tráfico e vive sendo perseguido pela polícia e por grupos de extermínio.

Nojinsk

Nojinsk vive num deserto com seu tapete mágico sempre fugindo dos americanos e de grupos extremistas que o confundem com terroristas. O personagem é, na verdade, um comerciante de camelos, odaliscas, haxixe e tapetes-voadores.

Ozetês

Eles vieram do espaço e se comunicam por telepatia, meditam e materializam coisas com a força do pensamento. Vários artistas famosos já meditaram com os ozetês, como Jimi Hendrix.

E é claro junto com Angeli e Laerte: Los 3 Amigos:

No vídeo abaixo, publicado pelo UOL , ele fala um pouco do começo da carreira:


Neste ele fala sobre o processo de criação das suas tiras.

Outro em que ele fala do personagem Netão:

Glauco fala sobre misticismo e Daime:

Entrevistas concedidas a Mara Gama em junho de 2001

Glauco Villas Boas, cartunista da Folha de São Paulo, nascido na cidade de Jandaia do Sul, estado do Paraná, faleceu aos 53 anos, no dia 12 de março de 2010, assassinado junto com o filho numa tentativa de assalto em sua casa, local que também funcionava como comunidade religiosa, na cidade de Osasco.

Facebook