Crônica da vida Urbana : Evidência de infração

Sexta-feira a noite, saio do trabalho por volta das 20 horas… o dia foi puxado, volto caminhando a pé do trabalho para casa, planejando ir fazer o supermercado, são oito horas, meu rodízio já acabou… vou de carro, já faço a compra pra semana e tá tudo certo! Mais uns passos depois e o peso da semana recai sobre os ombros, o cansaço bate e um conveniente mercado de bairro já parece ser uma ideia melhor do que carro, trânsito, quase duas horas de corredores e lista de compras, carrinho cheio, carrega o carro, descarrega o carro, guardar a tralha toda… méehhh! Nooope! Fiz melhor… já tava passando na frente… uma cestinha, duas sacolas, coca-cola, queijo e pão! só o essencial! E tomo o rumo de casa.

Caminhando pela rua, os olhos fechando! Abro um olho, deixo o outro fechado e sigo caminhando, um bocejo, abro o olho que tava fechado, fecho o que tava aberto… tô chegando, moro pertinho. Um boa noite pro porteiro, o elevador que não chega, procura a chave pra abrir a porta… pra que fecho com tetra chave também? Correspondência no chão… e o saco pra abaixar e pegar? Conta, só vem conta.

Sono… eu tô com sono, não sei se vou dar conta de chegar até a cozinha!

Péra! Deixa eu comer, já vou dormir! Nada muito gourmet, esquento a salsicha na panela da pipoqueira… Ah vai nessa mesmo! Corto o pão, só tinha baguete, o bico do pão já tava duro… baguete semi italiana… duuura! Fatia de queijo prato, e uma salsicha no meio do pão… mas só uma! Se comer outra não consigo dormir! Enche muito a barriga! Coca-cola geladinha… eeee… oops! cade o pão que tava aqui? comi! Só mais um… só com queijo agora, melhor não comer outra salsicha… senão depois não durmo!

Espera um pouco a comida baixar… chuveiro, banho e pra relaxar… rede! não é internet não, é rede mesmo. A minha fica no meio da sala de frente pra televisão, TV ligada celular na mão, beijo pra namorada pelo whatsaap, filminho na TV, soooono eu tô com sono! Do nada começa a chover… Agora é chuva, cansaço e sono… batata, dormi na rede. Nem sei quanto tempo. Acordei com barulho não sei se era vento batendo a janela, o barulho de chuva estava misturado com outra coisa… tô zonzo, tontinho de sono, vou escovar os dentes. Ouço vozes… escuto musica! Péra mas já desliguei a TV, de onde vem? Olho pra cima e o teto treme. Vizinhos do andar de cima! Pra lá de meia noite e eles com som alto! Deito a cabeça no travesseiro e escuto a musica desafinar… peraí, não pode ser! Festinha de karaokê?

Passei a prestar mais atenção… será?
É proibido! E a tal lei do silêncio? O povo acha que porque é sexta-feira pode…
Ato de infração, já pensei logo – chama a polícia!
Foi então que na próxima música tudo se confirmou…

E nessa loucura de dizer que não te quero
Vou negando as aparências
Disfarçando as evidências

… E-VI- DÊN-CI-AS… evidências … evidências Xitãozinho e Xororó!!!
Essa é sem dúvida uma evidência de que isso aquilo era um Karaokê. Afinal, alguém, alguma vez – já viu um Karaokê não tocar evidências? A música vem junto com o aparelho quando você compra. E a estrofe seguiu… com a música já grudando em meu cortex cerebral, como chiclete – e a droga do meu cérebro começou a cantar junto…

Mas pra que viver fingindo
Se eu não posso enganar meu coração?
Eu sei que te amo!

… e nisso mais gente foi juntando e audivelmente embriagados foram cantando…

Chega de mentiras
De negar o meu desejo
Eu te quero mais que tudo
Eu preciso do seu beijo
Eu entrego a minha vida
Pra você fazer o que quiser de mim
Só quero ouvir você dizer que sim!

sim meu caro leitor, já sei que você já se empolgou com a melodia e começou a subir o tom naturalmente pra chegar ao refrão … pois é!  Eles lá em cima também… e neste momento duas loucas começaram um disputa de quem cantava o refrão mais alto e desafinado…

Diz que é verdade, que tem saudade
Que ainda você pensa muito em mim
Diz que é verdade, que tem saudade
Que ainda você quer viver pra mim

Na boa tava cansado, só de pensar em… liga pro porteiro, pede pra acordar a sindica… ameaçar a chamar polícia, faz um auê… uma kizumba. E ainda pegar a imagem de vizinho rabugento que não deixa os outros se divertir.

Jura? Uma hora dessas?

Invariavelmente teria que fazer isso…. mas pra minha sorte, a vizinha ao lado é mais velha e irritadiça do que eu. Então, malandramente, contei com a sua intolerância natural, pra que fizesse tudo isso por mim.

Não deu outra… em menos de 5 minutos tava todo mundo quietinho lá em cima.

Evidentemente, o sono já tinha ido pro saco, então me levantei e comecei a escrever essa crônica, não demora muito, olho no relógio e a barriga ronca.

Já é tarde, e adivinha… deu sono e fome.

Noope!! Não vou comer de novo…
É !!! Devia ter comido aquele segundo pão com salsicha mais cedo!

 

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